A recente investigação da Polícia Federal sobre casos de intoxicação por metanol em bebidas alcoólicas em São Paulo evidencia um problema antigo e ainda não resolvido: a falta de mecanismos eficazes de controle e rastreabilidade no setor de bebidas no Brasil. Embora a apuração ainda esteja em curso, especialistas apontam que tragédias como essa poderiam ser ao menos mitigadas se o país contasse com sistemas modernos de monitoramento e identificação da produção.

No passado, o Brasil já teve experiências nesse sentido. O SICOBE (Sistema de Controle de Produção de Bebidas), desenvolvido pela Casa da Moeda do Brasil em parceria com a Receita Federal, permitia acompanhar a produção de cada unidade comercializada, garantindo maior transparência e reduzindo a circulação de produtos adulterados. O sistema foi desativado em 2016, sob críticas de custo elevado. Desde então, a fiscalização passou a depender essencialmente de declarações das próprias empresas e de operações pontuais de órgãos de controle.

O episódio de São Paulo reforça a importância de retomar esse debate. Com a implementação de selos digitais unívocos ou outras tecnologias de rastreabilidade, cada garrafa poderia ter sua origem, data e local de produção registrados em banco de dados seguro, acessível às autoridades. Dessa forma, em situações de contaminação, seria possível identificar rapidamente os lotes e pontos de distribuição, retirando-os de circulação antes que causem mais vítimas.

Não se trata de afirmar que sistemas como o SICOBE seriam capazes de eliminar totalmente o risco de fraudes ou adulterações. Entretanto, sua existência representaria um instrumento robusto de prevenção e combate, reduzindo a impunidade e permitindo reações muito mais rápidas diante de crises sanitárias.

Enquanto consumidores enfrentam as consequências da contaminação por metanol, a discussão sobre rastreabilidade de bebidas ganha novo fôlego. A tragédia em curso pode ser o ponto de inflexão necessário para que governo, indústria e sociedade reconheçam: sem transparência e controle rigoroso, o mercado de bebidas continuará vulnerável. E a saúde pública, exposta.